Folha de S. Paulo – 28/08/2010 – Por Marçal Aquino
Bons escritores contam (boas) histórias; grandes escritores criam mundos. O mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008) integrou, sempre com modéstia e extremo rigor, o seleto grupo de autores que estabelecem universos próprios para o transcurso de sua ficção, como a Macondo, de García Márquez, ou a Yoknapatawpha, de Faulkner. O reino mítico de Dicke chama-se Pasmoso, lugarejo de localização incerta nos confins do Mato Grosso, onde se passa Deus de Caim (Letra Selvagem, 400 pp., R$ 40), seu romance de estreia. Poucos escritores foram tão aclamados, e ignorados com igual fervor, quanto Dicke. Deus de Caim recebeu o Prêmio Walmap, atribuído por um júri do qual faziam parte Jorge Amado e Guimarães Rosa. Publicado em 1968, o romance não apenas fincou os marcos geográficos da literatura de Dicke, mas também seus marcos estéticos.

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O determinismo da física clássica, a do cotidiano, é só uma aproximação da realidade mais incerta
ATÉ QUE PONTO podemos conhecer o mundo? Alguns acreditam que podemos ir até o fim, encontrando respostas para as perguntas mais profundas sobre as operações da natureza. Outros acreditam que o conhecimento que podemos adquirir sobre o mundo tem limites. Esses limites não são apenas uma consequência dos nossos cérebros ou das ferramentas que usamos para estudar a realidade física. Fazem parte da própria natureza.
Dentro da história da ciência, talvez a melhor expressão dessa dicotomia seja encontrada nos famosos debates entre Albert Einstein e Niels Bohr, que se deram até a morte de Einstein em 1955.
Esses dois gigantes da física do século 20, que tinham grande respeito intelectual um pelo outro, trocaram opiniões em diversas ocasiões, tentando interpretar as misteriosas propriedades da ciência que ambos ajudaram a desenvolver: a estranha mecânica quântica, a física das moléculas, dos átomos e das partículas subatômicas.
Em 1905, Einstein publicou o artigo que considerava o mais revolucionário de sua obra. Nele, propôs que, diferentemente da visão prevalente na época, na qual a luz era vista como uma onda, ela também podia ser imaginada como feita de corpúsculos, mais tarde chamados de fótons. A questão era como algo podia ser onda e partícula ao mesmo tempo. A situação piorou em 1924, quando Louis de Broglie sugeriu que não só fótons, mas prótons e toda a matéria, também eram ondas.
A nova mecânica quântica impôs duas restrições fundamentais ao conhecimento: só podemos saber a probabilidade de encontrar uma partícula em algum lugar do espaço; o observador interage com o observado. Consequentemente, o determinismo da física clássica, a do nosso cotidiano, é apenas uma aproximação de uma realidade na qual o conhecimento completo parece ser uma impossibilidade.
Einstein não podia aceitar isso. Em carta a Max Born, que havia proposto a interpretação probabilística, escreveu: “A mecânica quântica demanda nossa atenção… A teoria funciona bem, mas não nos aproxima dos segredos do Velho. De qualquer forma, estou convencido que Ele não joga dados“.
Para Einstein, uma descrição probabilística da natureza não podia ser a palavra final. A natureza era ordenada. Acreditava que, em nível mais profundo, tudo voltaria ao determinismo que conhecemos. Para Bohr, o sucesso da mecânica quântica falava por si mesmo. Via a relação entre observador e observado como uma expressão da nossa conexão com o mundo. Tanto que, quando recebeu a Ordem do Elefante da coroa dinamarquesa em 1947, escolheu o símbolo taoísta do yin e do yang como brasão.
As coisas permanecem em aberto. Experimentos que tentaram encontrar algum vestígio de uma estrutura mais profunda do que a probabilidade quântica falharam. Por outro lado, a mecânica quântica exibe propriedades bizarras: um sistema pode afetar o comportamento de outro a distâncias enormes. Einstein chamava isso de “ação fantasmagórica à distância”. Existem efeitos não locais (sem a causa e o efeito que conhecemos tão bem) que parecem desafiar o espaço e o tempo. Einstein e Bohr adorariam saber que o debate continua.
*** MARCELO GLEISER – mgleiser@uol.com.br
Artigo publicado na Folha de São Paulo, domingo, 29 de agosto de 2010.
Leia também in English: Three Creation Poems
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MARCELO GLEISER (@MGleiser) é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro “Criação Imperfeita“
PublishNews – 31/08/2010 – Maria Fernanda Rodrigues
A Companhia das Letras é a grande finalista do Prêmio Portugal Telecom. Dela, foram escolhidos seis títulos. Mas mais do que isso, os brasileiros estão em peso entre os que podem ganhar o prêmio de R$ 100 mil, que será revelado no dia 8 de novembro. Estão no páreo: A passagem tensa dos corpos, de Carlos Brito Mello (Companhia das Letras), AvóDezanove e o segredo do soviético, de Ondjak (Companhia das Letras), Caim, de José Saramago (Companhia das Letras); Lar, de Armando Freitas Filho (Companhia das Letras); Leite derramado, de Chico Buarque (Companhia das Letras); O filho da mãe, de Bernardo Carvalho (Companhia das Letras); Pornopopeia, de Reinaldo Moares (Objetiva); Olhos secos, Bernardo Ajzenberg (Rocco) e Outra vida, de Rodrigo Lacerda (Alfaguara).
O jargão “por uma sociedade mais justa” pode ser falado pelo pior dos canalhas
VOCÊ ACREDITA em justiça social? Tenho minhas dúvidas. Engasgou? Como pode alguém não crer em justiça social? Calma, já explico. Quem em sã consciência seria contra uma vida “menos ruim”? Não eu. Mas cuidado: o jargão “por uma sociedade mais justa” pode ser falado pelo pior dos canalhas. Assim como dizer “vou fazer mais escolas”, dizer “sou por uma sociedade mais justa” pode ser golpe.
Aliás, que invasão de privacidade é essa propaganda política gratuita na mídia, não? O desgraçado comum, indo pro trabalho no trânsito, querendo um pouco de música pra aliviar seu dia a dia, é obrigado a ouvir a palhaçada sem graça dos candidatos. Ou o blablablá compenetrado de quem se acha sério e acredita que sou obrigado a ouvi-lo.
Mas voltando à justiça social, proponho a leitura do filósofo escocês David Hume (século 18), “An Enquiry Concerning the Principles of Morals, Section III“. Cético e irônico, Hume foi um dos maiores filósofos modernos. É conhecida sua ironia para com a ideia de justiça social. Ele a comparava aos delírios dos cristãos puritanos de sua época em busca de uma vida pura. Para Hume, os defensores de um “critério racional” de justiça social eram tão fanáticos quanto os fanáticos da fé.
Sua crítica visava a possibilidade de nós termos critérios claros do que seria justo socialmente. Mas ele também duvidava de quem estabeleceria essa justiça “criteriosa” e de como se estabeleceria esse paraíso de justiça social no mundo. Se você falar em educação e saúde, é fácil, mas e quando vamos além disso no “projeto de justiça social”? Aqui é que a coisa pega.
Mas antes da pergunta “o que é justiça social?”, podemos perguntar quem seriam “os paladinos da justiça social”. Seria gente honesta? Ou aproveitadores do patrimônio dos outros e da “matéria bruta da infelicidade humana”, ansiosos por fazer seus próprios patrimônios à custa do roubo do fruto do trabalho alheio “em nome da justiça social”? Humm…
A semelhança dos hipócritas da fé que falavam em nome da justiça divina para roubar sua alma, esses hipócritas falariam em nome da justiça social para roubar você. Ambas abstratas e inefáveis, por isso mesmo excelentes ferramentas para aproveitadores e mentirosos, as justiças divina e social seriam armas poderosas de retórica autoritária e mau-caráter.
Suspeito de que se Hume vivesse hoje entre nós, faria críticas semelhantes à oligarquia de esquerda que se apoderou da máquina do governo brasileiro manipulando uma linguagem de “justiça social”: controle da mídia, das escolas, dos direitos autorais, das opiniões, da distribuição de vagas nas universidades, tudo em nome da “justiça social”. Ataca-se assim, o coração da vida inteligente: o pensamento e suas formas materiais de produção e distribuição.
A tendência autoritária da política nacional espanta as almas menos cegas ou menos hipócritas. A oligarquia de esquerda associa as práticas das velhas oligarquias ao maior estelionato da história política moderna: a ideia de fazer justiça social a custa do trabalho (econômico e intelectual) alheio.
Outro filósofo britânico, Locke (século 17), chamava a atenção para o fato de que sem propriedade privada não haveria qualquer liberdade possível no mundo porque liberdade, quando arrancada de sua raiz concreta, a propriedade privada (isto é, o fruto do seu esforço pessoal e livre e que ninguém pode tomar), seria irreal.
Instalando-se num ambiente antes ocupado pela oligarquia nordestina, brutal e coronelista, e sua aliada, a chique oligarquia industrial paulista, os “paladinos da justiça social” se apoderam dos mecanismos de controle da sociedade e passam a produzir sucessores e sucessoras tirando-os da cartola, fazendo uso da mais abusiva retórica e máquina de propaganda.
Engana-se quem acha que propriedade privada seja apenas “sua casa”. Não, a primeira propriedade privada que existe é invisível: sua alma, seu espírito, suas ideias. É sobre elas que a oligarquia de esquerda avança a passos largos. Em nome da “justiça social” ela silenciará todos.
Artigo publicado na Folha de São Paulo, segunda-feira, 23 de agosto de 2010.
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Luis Felipe Pondé é filósofo e psicanalista, doutorado em Filosofia pela USP/Universidade de Paris e pós-doutorado em Epistemologia pela Universidade de Tel Aviv. Atuou como professor convidado nas universidades de Marburg (Alemanha) e de Sevilha (Espanha). Atualmente é professor do programa de pós-graduação em Ciências da Religião e do Departamento de Teologia da PUC- SP, da Faculdade de Comunicação da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado) e professor convidado da pós-graduação de ensino em ciências da saúde da Universidade Federal de São Paulo e da Casa do Saber.
Autor, entre outros títulos, de ” O Homem Insuficiente “, ” Crítica e Profecia “, ” Filosofia da Religião em Dostoievski”, ” Conhecimento na Desgraça ” e ” Ensaios de Filosofia da Religião”. É articulista da Folha de S. Paulo, com coluna semanal às segundas-feiras.
PublishNews – 25/08/2010 – Por Redação
Gilberto Freyre, Ferreira Gullar, Chico Buarque, Nádia Battella Gotlib, Moacyr Scliar, Bernardo Carvalho, Luiz Ruffato e Adriana Lisboa são alguns dos escritores brasileiros que chegarão ao mercado internacional com a ajuda do programa de bolsa de tradução da Fundação Biblioteca Nacional. Chico Buarque, por exemplo, vai ser traduzido no Reino Unido e na Croácia. Toda poesia, de Ferreira Gullar, vai mais longe. Será editado na Suécia. A Espanha é o país que mais bolsas ganhou. Elas variam de US$ 1 mil a US$ 4 mil.




